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Liberdade aos 42

Liberdade aos 42

19
Fev21

A Liberdade de... Ana Cristina Gomes


A liberdade de ser quem sou!

Fui durante muitos anos prisioneira de mim mesma. Conhecia a definição de liberdade do dicionário. Sabia que vivia numa sociedade cuja liberdade tinha sido resgatada nesse 25 de abril de 1974. Tinha liberdade de expressão, podia escrever as minhas opiniões. Podia ir onde bem quisesse sem ter de me justificar. No entanto, eu não era livre. Não porque estivesse em clausura numa casa. Eu própria me encerrava no meu quarto, longe de tudo e todos. Ninguém me prendia os movimentos ou palavras. Eu própria os petrifiquei sem qualquer hipótese de uma ação. Eu estava refém de mim mesma. A liberdade era uma miragem na minha vida. Só eu me poderia libertar de mim mesma. Não sabia se algum dia conseguiria abrir o cadeado. A chave estava no meu coração, mas achava que o caminho estava vedado e não o ultrapassaria para encontrar o meu tesouro mais precioso. Eu mesma. 

Era uma miúda e adulta tímida e com excesso de peso. Cedo passei a odiar ver-me ao espelho. Era tão feia aos meus olhos. Não cuidava de mim porque não valia a pena. Ninguém olharia para uma prisoneira em decomposição num calabouço de si mesma. Arrastava a minha autoestima na mais suja lama que existe. Nunca dizia o que me ia na alma. Não partilhava emoções. Não confessava sentimentos. Dizia que sim a tudo. Desconhecia o poder da palavra não. Tinha medo de mostrar quem eu era e o que queria. Ficava tudo na minha garganta a remoer até me adoecer o corpo. Enfim, estava presa sei lá eu onde. 

Fugia das amizades e do amor. Tinha vergonha de mim. A pessoa que os outros viam era um espetro de quem eu realmente era. Tinha construído tantos muros e vedações para ninguém entrar. A liberdade nem sempre é algo físico, algo palpável. A liberdade está na nossa mente. Nas nossas crenças. Naquilo que fazemos de nós. 

Um dia decidi que era tempo de me soltar. De começar a viver antes de morrer de solidão. Sair da prisão onde já vivia desde que me conhecia não seria um processo fácil. Não era chegar ali e dizer-me “Agora, Ana, és livre”! Era preciso subir devagar cada degrau até ao meu coração para não cair aos trambolhões e ficar ainda mais ferida e prostrada no chão. Era urgente começar a cuidar de mim, do meu corpo, da minha mente. Tinha de me mimar. Tinha de aprender a sentir os momentos. Até os mais singelos e despercebidos instantes eram valiosos nesta minha libertação. Aos poucos fui destruindo as minhas barreiras. A deixar entrar o sol e a luz das estrelas para me guiarem rumo a essa liberdade desaparecida na sombra que eu era. Foi tão, mas tão difícil. Uma autêntica guerra. Um caminho muito moroso e penoso. Foi uma luta titânica dentro de mim. Ir ao mais profundo do meu ser, embalar as minhas feridas, enfrentar medos e inseguranças. Cada conquista minha era uma amarra que desaparecia do meu ser.  Começar a fazer o que me oferecia o prazer da felicidade. A escrever. A escrever quem sou e que emoções transporto. Ainda não terminei essa travessia, porque a viagem dentro de nós nunca termina. Mas hoje sei e sinto que sou livre, não porque vivo numa democracia, mas porque tenho em mim a liberdade de poder ser quem eu realmente sou! Sem medos, prisões ou fantasmas. 

Para mim liberdade é o amor por mim. Saber amar-me foi a mais difícil batalha que travei, mas foi aquela que me libertou! 

 

Texto da autoria de: Ana Cristina Gomes

 

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