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Liberdade aos 42

Liberdade aos 42

08
Set20

Realidade...


 

Realidade

 

A espantosa realidade das coisas

É a minha descoberta de todos os dias.

Cada coisa é o que é,

E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,

E quanto isso me basta.

 

Basta existir para se ser completo.

 

Tenho escrito bastantes poemas.

Hei-de escrever muitos mais, naturalmente.

Cada poema meu diz isto,

E todos os meus poemas são diferentes,

Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.

 

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.

Não me ponho a pensar se ela sente.

Não me perco a chamar-lhe minha irmã.

Mas gosto dela por ela ser uma pedra,

Gosto dela porque ela não sente nada,

Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

 

Outras vezes oiço passar o vento,

E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

 

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;

Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem esforço,

Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;

Porque o penso sem pensamentos,

Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

 

Uma vez chamaram-me poeta materialista,

E eu admirei-me, porque não julgava

Que se me pudesse chamar qualquer coisa.

Eu nem sequer sou poeta: vejo.

Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:

O valor está ali, nos meus versos.

Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

“Poemas Inconjuntos”, in Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa.

 

BUDAPESTE_as curvas do tempo.jpg

Em Budapeste...

 

28
Jun20

Bom domingo!


XLI - No entardecer dos dias de Verão, às vezes,

 

No entardecer dos dias de Verão, às vezes,

Ainda que não haja brisa nenhuma, parece

Que passa, um momento, uma leve brisa...

Mas as árvores permanecem imóveis

Em todas as folhas das suas folhas

E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,

Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...

 

Ah!, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!

Fôssemos nós como devíamos ser

E não haveria em nós necessidade de ilusão...

Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida

E nem repararmos para que há sentidos...

 

Mas Graças a Deus que há imperfeição no Mundo

Porque a imperfeição é uma coisa,

E haver gente que erra é original,

E haver gente doente torna o Mundo engraçado.

Se não houvesse imperfeição, havia uma coisa a menos,

E deve haver muita coisa

Para termos muito que ver e ouvir...

"O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa

 

Algar seco.JPGAlgar Seco_Carvoeiro

 

13
Jun20

Santo António e Fernando Pessoa...


 

Santo António

 

Nasci exactamente no teu dia —

Treze de Junho, quente de alegria,

Citadino, bucólico e humano,

Onde até esses cravos de papel

Que têm uma bandeira em pé quebrado

Sabem rir...

Santo dia profano

Cuja luz sabe a mel

Sobre o chão de bom vinho derramado!

 

Santo António, és portanto

O meu santo,

Se bem que nunca me pegasses

Teu franciscano sentir,

Católico, apostólico e romano.

(continuar a ler...)

Fernando Pessoa

 

Santo António, pagela, autor desconhecido, MA.GRA.281 _ Séc. XIX (finais) - Séc. XX (início)

Pertenceu a Fernando Pessoa, tendo sido integrada na coleção do Museu por doação de Manuela Murteira e Luís Rosa Dias, sobrinhos do poeta.

 

04
Abr20

Rosas e lírios...


 

rosa....JPG

 

Dai-me rosas e lírios,

 

Dai-me rosas e lírios,

Dai-me flores, muitas flores

Quaisquer flores, logo que sejam muitas...

Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas

 

Em me dardes muitas flores,

Nem isso... Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço

Que me deis flores...

Sejam essas as flores que me deis...

 

Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio,

Sob o céu cheio de sol!

A minha agonia da realidade lúcida!

Desejo de chorar absolutamente como uma criança

 

Com a cabeça encostada aos braços cruzados em cima da mesa,

E a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço,

Estando eu a chorar naquela posição.

 

O homem que apara o lápis à janela do escritório

Chama pela minha atenção com as mãos do seu gesto banal.

Haver lápis e aparar lápis e gente que os apara à janela, é tão estranho!

É tão fantástico que estas coisas sejam reais!

Olho para ele até esquecer o sol e o céu.

E a realidade do mundo faz-me dor de cabeça.

 

A flor caída no chão.

A flor murcha (rosa branca amarelecendo)

Caída no chão...

Qual é o sentido da vida?

Fernando Pessoa

 

lírio.jpg

No nosso jardim